quinta-feira, 27 de março de 2014

Insônia

Passei a grande parte de minha vida dormindo. Desde menino, desde então - eu amava dormir e dormia. E, sendo assim, com o passar dos anos eu comecei a expandir meus sonhos. Experimentava dormir em lugares improváveis, tomar leite quente, chá quente, álcool e até dormir com músicas diversas. Experimentava com o sono para ver no que eu sonharia.
Daí eu descobri minha vocação; logo cedo, antes mesmo de sonhar com faculdade ou uma carreira, eu sabia que queria viver de dormir. Sonhei com isso muito na primavera dos meus dias. Quando cresci, fui estudar na USS - Universidade Santa Soneca. Logo nos primeiros dias, eu me apaixonei por aquela rotina. Tomava as aulas com atenção: Media níveis de baba, atividade cerebral, sonhos temáticos, durante cada nível de sono. Estudava principalmente os pesadelos. Sonhei tão profundamente com cada aula, fui aluno exemplar.

Chegando na reta final, eu estava enlouquecido com a Monografia. Estava muito confuso para escolher o tema. Creio que fiz a escolha certa quando fiz a pesquisa em Harmonia dos Roncos. Foi uma época em que quando eu invariavelmente tinha que levantar, sonhava acordado. Vivia perseguindo Morfeu para fazer perguntas, conversando com o "sandman". Gravei roncos ao redor do mundo todo. Me formei em Sonho, fui feliz como sempre sonhei.
Mas, sabe, leitor, você provavelmente está com inveja de eu não precisar acordar cedo, ou sequer acordar em certos dias. Só que eu estou agora numa fase em que não sei bem o que foi, se vivi de sonho ou se sonhei que vivi. Quer dizer, nunca amei nenhuma mulher que não fosse meu sonho da mulher perfeita. Nunca visitei outros lugares fora da minha imaginação, nunca saí de dentro de mim mesmo. E isso me faz uma falta, que nem sei como, já que nunca tive. Queria mesmo era acordar por uns dias... Sentir o sentido real das coisas que as pessoas sonham. Ver o que é ilusão.
 Ah, leitor, como eu queria poder despertar. Acordar e então voltar e ver se ainda quero passar o resto dos meus dias numa cama, sonhando comigo mesmo, com o tom sedutor do impossível. Mas confesso que tenho medo. Seria necessário que eu tomasse mais banhos frios que o desejado, e um número ainda mais exorbitante de café preto. E, se depois disso, meu sono nunca mais fossem os mesmos? Não sei... É arriscado. A verdade é que esse, é só mais um sonho antigo. z z
Acredito que pouco antes de morrer, z z
quando perceber que me resta pouco tempo, vou largar os
soníferos e ver se nesse mundo de realidade
tem um lugar para um velho sonhador.

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