terça-feira, 5 de agosto de 2014

Miopia

"Lembre-se dessa noite. Lembre-se, por favor." Hoje eu lembro, lembro tanto que quase consigo reviver aqueles momentos, aquela noite, aqueles dias. Quase. Lembro e não devia.
Eu costumava olhar nos olhos dele e jurar para mim mesma que não me deixaria esquecer, que não podia fazer isso comigo mesma. Porque aqueles dias foram mais para mim do que todos os outros anos e meses e horas. Eu conto nosso tempo juntos em memórias.
Mas hoje, eu estou longe. Minha miopia me nega os detalhes que eu sempre soube que faltariam, que eu tentei guardar como pude, eu tentei mas eles me escaparam pelos dedos. Toda noite eu sonho com ele, eu sei que não superei os olhos azuis, eu sinto o gosto seco da falta de ar que essas memórias me causam. Toda noite desde então eu sonho com a nossa despedida, com o inevitável que acabou acontecendo, mas não parece verdade. É como estar distraída aos tirar os brincos e deixar um deles cair pelo ralo da pia do banheiro. Acontece rápido, quando vê já foi e é isso. É como sentir o copo deslizando pela sua mão, você sente a queda iminente mas não a evita, somente para se arrepender o último minuto.
O vento me acordou destes sonhos essa noite. Ele passava pela minha janela e eu pensei em você. Eu estou aqui, mas me sinto distante de mim mesma, do meu quarto, de tudo. Sinto-me tonta. Levanto para fumar um cigarro e me conforto na visão da fumaça macia subindo pela minha mão, mas eu ainda me sinto nula comparada à força da sua ausência. Meus olhos ardem ao olhar para cima e procurar alguma estrela no céu escuro e nublado dessa cidade que não é mais minha. E eu voltei para cama. Digo para mim mesma que pelo menos mais uma noite seria o suficiente mas sei que é mentira.
Lembro de você naquele restaurante, estava frio lá fora, era Dezembro. Lembro daquele dia quando você me convidou para conhecer seu gato. Nosso café, onde parecia que cada parede e mesa tinha seu nome. Mas minha miopia esconde, eu vejo nublado e não sei mais o que perco. Quero fechar os olhos e lembrar por inteiro mas sem você perto é como o negativo de uma fotografia, como as palavras de um filme mudo.