quinta-feira, 27 de março de 2014

24h

Ele acordou para abrir os olhos e ver que o travesseiro no qual estava deitado não era o seu. Os lençois que emaranhavam suas pernas também não eram seus, tanto quanto o quarto e a mobília eram estranhos. Sua mão, quase que movida por uma força própria que fugia do resto do seu corpo, subiu até seus olhos, para esfregá-los metodicamente. Se ele decidir levantar para abrir as cortinas, não só a luz desconfortável da manhã feia de sua cidade invadiria seu quarto, como o barulho dos automóveis. Mas em lugar algum, digo, além do quarto, ele estaria tão ciente dos seus passos até aquela cama; seu passado. Em qualquer outro lugar, ele teria alguma chance de não ser nocauteado. Que se levantem as pernas, então, naquele andar sem chão do dia a dia. Café da manhã, banho, rua. Hoje gritaria como um recém nascido...

Avelã


Entregou os braços ao vento, que soprava forte, levando também seus cabelos cor de avelã. E seus olhos ardiam ofuscados pelo sol, a pele queimava. Ela podia ouvir o som de uma guitarra que ronronava como um felino, profanando acordes sonolentos. Sentia todas as sombras escondidas nas pequenas frestas entre as árvores frondosas.
Ela via o mundo plano e perolado. Jurava que fazia moda sendo assim, clemente de solidão. Gotículas de suor mostravam-se timidamente em sua testa. No crepúsculo, os raios de sol perdiam força, ficando mais fracos gradualmente. Já era noite de novo, e tudo nela esfriava; a pele, o olhar e o coração.
"Então chegou a hora", suspirou. Arrastada, ela vagou inerte entre os campos de trigo, penetrando ingenuamente na noite, à caminho da cidade.
Era hora de matar de novo...

Saber

Meu amor, você é um espelho, um cigano.
E eu te tenho em mim, por encanto.
Aconteceu e eu não sei se te chamo,
ou me calo e te espero num canto.
Simplesmente te quero, de um tanto,
e continuar desse jeito é um engano.

Eu preciso saber de você,

que te amo sem medo, sem pranto.

Mariposa Refletida

Ratificada, ela meramente fitava o espelho, absorta na imagem traduzida de uma menina fraca e escassa;
de sua boca lhe escorria ferrugem,
de suas unhas, escorria o caos,
e, dos seus olhos, nada. Inundados de secura.

Ela imundamente existia.
Estudava a epifania clara
naquele conjunto de prata com vidro;
um amor efêmero, doce, ardente, vermelho.

Corpo Doente.

Apenas uma menina, mas compreendia,
ao contemplar-se nua,
sua esquizofrenia.

Ela suportava a memória pungente,
que
escorria.
Memória de um passado sádico,
a encará-la, gemendo indecentemente,
espelhado.

Insônia

Passei a grande parte de minha vida dormindo. Desde menino, desde então - eu amava dormir e dormia. E, sendo assim, com o passar dos anos eu comecei a expandir meus sonhos. Experimentava dormir em lugares improváveis, tomar leite quente, chá quente, álcool e até dormir com músicas diversas. Experimentava com o sono para ver no que eu sonharia.
Daí eu descobri minha vocação; logo cedo, antes mesmo de sonhar com faculdade ou uma carreira, eu sabia que queria viver de dormir. Sonhei com isso muito na primavera dos meus dias. Quando cresci, fui estudar na USS - Universidade Santa Soneca. Logo nos primeiros dias, eu me apaixonei por aquela rotina. Tomava as aulas com atenção: Media níveis de baba, atividade cerebral, sonhos temáticos, durante cada nível de sono. Estudava principalmente os pesadelos. Sonhei tão profundamente com cada aula, fui aluno exemplar.

Chegando na reta final, eu estava enlouquecido com a Monografia. Estava muito confuso para escolher o tema. Creio que fiz a escolha certa quando fiz a pesquisa em Harmonia dos Roncos. Foi uma época em que quando eu invariavelmente tinha que levantar, sonhava acordado. Vivia perseguindo Morfeu para fazer perguntas, conversando com o "sandman". Gravei roncos ao redor do mundo todo. Me formei em Sonho, fui feliz como sempre sonhei.
Mas, sabe, leitor, você provavelmente está com inveja de eu não precisar acordar cedo, ou sequer acordar em certos dias. Só que eu estou agora numa fase em que não sei bem o que foi, se vivi de sonho ou se sonhei que vivi. Quer dizer, nunca amei nenhuma mulher que não fosse meu sonho da mulher perfeita. Nunca visitei outros lugares fora da minha imaginação, nunca saí de dentro de mim mesmo. E isso me faz uma falta, que nem sei como, já que nunca tive. Queria mesmo era acordar por uns dias... Sentir o sentido real das coisas que as pessoas sonham. Ver o que é ilusão.
 Ah, leitor, como eu queria poder despertar. Acordar e então voltar e ver se ainda quero passar o resto dos meus dias numa cama, sonhando comigo mesmo, com o tom sedutor do impossível. Mas confesso que tenho medo. Seria necessário que eu tomasse mais banhos frios que o desejado, e um número ainda mais exorbitante de café preto. E, se depois disso, meu sono nunca mais fossem os mesmos? Não sei... É arriscado. A verdade é que esse, é só mais um sonho antigo. z z
Acredito que pouco antes de morrer, z z
quando perceber que me resta pouco tempo, vou largar os
soníferos e ver se nesse mundo de realidade
tem um lugar para um velho sonhador.

Loucura

- Doutor, estou começando a ouvir vozes.
- E o que elas te dizem?
- Eu não entendo o que elas dizem.
- Bem, e como elas são? Zangadas, felizes, ...?
- Elas me parecem vazias.
- Vazias?
- Mudas.
- Vozes mudas?
- Como silêncio.
- Como silêncio?
- Sim.
- Como pode isso?
- Elas simplesmente não me dizem nada. Nada são.
- Então como sabe que estão falando com você?
- Sei porque eu sinto.
- Sente as vozes que nada lhe dizem?
- Não; sinto o vazio.

Camille foi embora

Camille sabia demais. Mas disso, ninguém mais sabia. Assim ela sumiu, desapareceu num dia qualquer, talvez fosse sábado. Os amigos disseram que já esperavam, que era esperada a fuga de Camille. Eles sabiam pois uma semana antes Camille chorou de uma forma que geralmente não se chora. Foram lágrimas demais e em excesso, durante um filme que ninguém mais achou triste. Na saída do cinema dizem que Camille disse apenas duas palavras antes de voltar para casa. "Vou embora".
Seus pais também não se mostraram surpresos, eles concordaram silenciosamente que Camille nunca foi dessas que ficam, que permanecem. Todos sabiam o mesmo e não sabiam o motivo. A verdade é que Camille nunca chegou a decidir sumir como sumiu. Aconteceu como essas coisas costumam acontecer; porque sim. Porque não?
Desde então ninguém soube mais nada. Lembra da Camille? Aquela que queria que sua vida fosse um filme de Wes Anderson, que foi finalmente esquecida, substituída pelo fenômeno de sua partida. Só existiu pouco a pouco, em palavras, em pontos.