Alguns dias eu acordo, e não sinto sono, não sinto vontade de acordar,
não sinto nada. Então, dou-me por mim; um corpo sujo de nanquim, com a
pele cheia de eca de tinta. E ponho um fim nas recordações que tais
manchas me trazem. Busco, instintivamente, seu amor ao meu lado, você.
Seus dedos, seus pés, cabelos, braços, pelos, unhas, lábios. Mas
encontro lençóis frios e macios, de uma textura que parte meu coração.
Fico estática, percebendo o quão em vão foi acordar, sentindo sua falta
num fluxo engarrafado na minha garganta, e freios emperrados.
As
energias que me regiam agora dançam em órbita desse amor que morre em
mim todo dia. Amor com remetente não localizado que, sem ter para onde
ir, se esquece em mim. E morre para renascer amanhã.
Você morre. Toda
vez que acordo e me lembro que te perdi, você se vai de novo, para mim.
Enfim, seu destino de cetim negro carrega meus olhos de fumaça. E o que
restou de mim? Essas marcas de nanquim, das tantas vezes que beijei
desesperadamente minhas palavras rabiscadas em minhas cartas negadas.
Jamais enviadas, jamais lidas.
Essas manchas das vezes em que me
pintei as pontas dos dedos, tentando lhe enviar o amor que ainda há, que
não foi enterrado e nunca será.
É sempre assim: eu acordo, lembro,
amor. Como eu amo. Faço o café, banho e longas pausas encarando uma
parede qualquer; seu rosto. Eu ainda amo.
Sonho com você, penso em
você. Penso em como há um fim em mim, que acontece de ser o seu. Sonho
que nunca terminaria, nossa vida contida num tanto de carinho que não
tornarei a sentir. Como foi nossa despedida, sua morte, minha vida. E,
mais uma vez, penso em como consegue ainda ser uma ironia; é, esta, nada
além de outra carta para você.
Texto originalmente postado em: http://sultansroad.blogspot.com.br/2010/06/manifesto-da-partida.html
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