quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Faminto

Olhos de corvo me pegam desprevenida quando acordo de madrugada. Asas de corvo batem famintas, e fazem um rebuliço selvagem na minha querida, partida, vontade de esquecer. Patas de corvo polidas, buscam, famintas, minha esperança moribunda, de enfim parar de me preocupar com meu magnífico destino, meu pretérito contundente.

Eu olho para o corvo de olhos ardentes, asas e patas decididas, e só então enfrento meu medo das memórias; aquelas que te encaram encardidas no canto do quarto, no espelho retrovisor do carro. No minuto seguinte, pisco para meus olhos incinerados, e, paradoxalmente, enfrento meu medo de me perder entre voos vazios de um futuro carente. 

Eu lembrei dele, o corvo que morava em mim, lembrei dele no meu coração e no meu pulmão.
Senti suas asas batendo dentro do meu peito, seu canto esganiçado ressoando no meu pensamento como uma lamúria aguda. Eu era hóspede de suas penas negras. E eu senti saudade dele. Um outro, que saiu pela minha garganta, pelos meus olhos, pelos meus poros, e se pôs a voar um voo viciado, migrando entorpecido para onde quer que seja o destino dos sentimentos sentidos.

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