Olhos de corvo me pegam desprevenida quando acordo de madrugada. Asas de corvo batem famintas, e fazem um
rebuliço selvagem na minha querida, partida, vontade de esquecer. Patas
de corvo polidas, buscam, famintas, minha esperança moribunda, de
enfim parar de me preocupar com meu magnífico destino, meu pretérito
contundente.
Eu olho para o corvo de olhos ardentes, asas
e patas decididas, e só então enfrento meu medo das memórias; aquelas
que te encaram encardidas no canto do quarto, no espelho retrovisor do
carro. No minuto seguinte, pisco para meus olhos incinerados, e,
paradoxalmente, enfrento meu medo de me perder entre voos
vazios de um futuro carente.
Eu lembrei dele, o corvo que morava em mim, lembrei dele no meu coração e no meu pulmão.
Senti
suas asas batendo dentro do meu peito, seu canto esganiçado ressoando no meu
pensamento como uma lamúria aguda. Eu era hóspede de suas penas negras. E eu senti saudade dele. Um
outro, que saiu pela minha garganta, pelos meus olhos, pelos
meus poros, e se pôs a voar um voo viciado, migrando entorpecido para onde
quer que seja o destino dos sentimentos sentidos.
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